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Falsas lembranças e coisas simples.

agosto 16, 2010

Sou muito ligado ao tema poético rural, a vida sertaneja, o cheiro do café e o cuscuz perfumando o nascer do sol, as sambadas de viola ao redor da fogueira nos sábados de lua cheia. O rela-bucho nos tempos de São João, as cantigas e rezas das senhoras eternas do outro lado do açude, as pescarias que engoliam a manhã e a tarde como se fossem cinco minutos, o rádio tocando Roberto Carlos e novamente aquele café a perfumar a casa fria. Conversas poéticas e filosóficas no alpendre, acompanhadas pelo canto dos sabiás.

Mas nunca tive isso. Nunca vivi em sítio, nunca passei tempos no sertão, não sei tirar leite de vacas, não agüento uma apanha de feijão, não me acostumo com mosquitos nem mosquiteiros.  Não freqüento forrós em tempos de festas juninas, mas sinto saudade.

Sinto saudade de coisas que não existiram, pelo menos fisicamente. Fui criado brincando nas ruas de minha cidade, jogando chimbre na calçada barrenta, correndo dos “doidos” e aperreando a vida das fofoqueiras da rua.

Coisas que não fizeram parte da minha infância nem da minha vida até agora, são guardadas junto com minhas saudades reais. Quando ouço Jessier Quirino, Chico Pedrosa, Repentistas e outros artistas falando desses assuntos, sentem como se falassem da minha vida, imagino tudo, como se realmente aquilo fizesse parte da minha história. Sinto saudade de brincadeiras no açude, das carreiras dentro das capoeiras, jogando pedras do alto do lajeiro, galopando em cavalos, ouvindo as cantigas de novena, os bolinhos de chuva servidos ao fim das rezas.

Tudo isso faz parte de mim, se torna tão real quanto o “realmente real” e me faz admirar cada vez mais esse jeito de dá valor ao simples, de ir direto ao ponto, sem rodeios ou “arrudeios”, admirar o nascer e o pôr-do-sol, o Cancão que canta toda manhã. Talvez me sinta tão atraído pelo sertão e pelo rural porque a cidade não permite que se admire o simples, olhar um pássaro na praça é perder tempo. Porque se preocupar em não perder tempo, se perdemos tanto pensando em como não o perder? Olhe pela janela sem procurar nada, só veja e estenderá o que eu falo.

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Felipe Silva

 

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