Skip to content

Dois uns

março 8, 2016

Feliz, simpático e experimentador, esse era Antônio. Passava o dia como rapaz de família, fugindo de discussões, sendo passivo e careta. Era careta. Careta no sentido literalmente figurado, pois era bonito. Uma beleza simples, sem muitos luxos. Passava as horas claras fugindo de assuntos polêmicos que causassem discussão, pois sabia que teria de mentir para garantir a visão certinha que todos tinham dele, nesse período odiava cigarros, bêbados e barulho. Barulho ele não gostava em nenhuma hora, apenas suportava em alguns momentos.
Forte, não muito alto, cabelos levemente encaracolados e num tom castanho escuro. Sua beleza não era a favorita das garotas daquela época, mas sabia mostrar suas outras características tanto para as garotas do dia, quanto da noite. Eram duas personalidades distintas, duas pessoas vivendo em um corpo sem espaço. Precisava-se de uma opção para resolver esse terrível impasse: Quais dos dois predominavam? É fato que sua personalidade diurna ficara ultimamente menos ativa, as noites tinham sido mais longas e os dias sonolentos.
A conquista no dia era mais romântica, pequenos toques nas mãos e braços. Citações de poemas ou músicas românticas embaladas com poucas notas ao violão, mas canções que arrebatavam aqueles corações, à primeira vista angelicais. Antônio Vaz como gostava de ser chamado, conseguia passar despercebido diante dos olhares dos amigos no quesito conquista, pois nunca relatava suas aventuras para esses indivíduos tão egocêntricos – embora o egocentrismo fosse algo que estivesse com Antônio sempre, só que de forma sutil.
Para a família ele nunca saia a noite, o que causava certa estranheza, pois já estava na idade de sair e falavam:
– Tony, seus primos vão hoje a noite a uma festa no centro, quer ir com eles?
E ele sempre respondia que não. Não queria que descobrissem suas saídas noturnas.
A noite realmente era uma criança para ele. Às nove horas quando seus pais iam dormir ele se levantava, com seu casaco surrado colocava um bom perfume e saia. Ao pular a janela, embaixo de uma caqueira sempre pegava um pequeno embrulho, que animava suas noites.
Sempre ia pra um mesmo bar, um estilo underground com pouca pessoas, estas espalhadas em mesas redondas e mal iluminadas. Alguns tocavam ou conversavam sobre diversos assuntos, mas nunca o comum, os assuntos dali nunca eram debatidos em outros lugares. Não havia espaço para julgamentos, todos carregavam suas peculiaridades e seus pequenos embrulhos.
Vodka, cigarros, beijos, abraços, palavras, raiva, carinho, consolo. Tudo isso se encontrava lá. Era nesse antro de perdição que o tal jovem andava quase todas as noites. Teve vários relacionamentos, curtos ou pouco duradouros sempre se tornava amigo delas. Sentia ali ser realmente seu lar, seu refúgio, os que estavam eram sua família também, mas uma família leve, apenas havia uma regra: Pagar antes de sair. Andar pelas ruas escuras da cidade no meio da madrugada era pra ele uma redenção, uma forma de se purificar das mentiras que o sustentava no dia. Ah, e como as luzes da madrugada escura brilhavam!
Sua família nunca descobriu nada sobre a sua vida dupla, mas seu corpo estava se tornando a testemunha de acusação do seu crime, suas noites mal dormidas estavam acabando sua saúde as olheiras mostravam o quão violenta era a reação do corpo ao sono, o pulmão sofria com os cigarros tragados durante aquela época.
Era um amante da pele, dos cheiros, da textura, dos cabelos e do toque feminino. Adorava quando aquelas nada santas mulheres deleitavam-se acarinhando cada parte do seu corpo.
Quando sua outra persona pedia, ele voltava pra casa, sempre antes do amanhecer, dava uma gorjeta ao vigia da rua como quem paga propina, para que ele, como a única pessoa que via o momento de troca de suas personalidades, não falasse a ninguém.
Anos se passaram assim. Sexo, livros, drogas e mentiras.
Antônio escrevia muito bem e se destacava na música. Agora ele era maior, poderia portanto assumir sua outra vida, mas não, o costume e a comodidade o faz continuar com sua farsa. Com tudo, se deu bem, passou numa boa faculdade, na parte do dia tinha uma namorada. Totalmente adaptado, usava os pontos bons das duas personalidades.
Certa vez quando ele passava após o almoço acompanhado de seus pais na frente de uma igreja, sai de lá o vigia noturno. Certo que ele não falaria nada, Antônio continuou a caminhar, e o vigia chamou sua mãe e naquele momento ele disse:
– Esse garotão é seu filho? Ele passa por aqui a noite, voltando pra casa e sempre me ajuda. É um bom garoto.
Depois daquele dia ninguém mais viu Antônio.

.

.

Felipe Silva

Anúncios
No comments yet

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: